Á semelhança do ano anterior, este ano a ida a Santiago nunca esteve descartada mas por outro percurso. Depois de umas pesquisas por track na net, juntei algumas e segui caminho.

Este percurso foi feito em 3 dias por mim e por uns amigos entre Caldelas e Santiago de Compostela, passando pelo Gerês, Xinzo de Limia e Ourense. Começa na Geira Romana percorrendo-a praticamente toda seguindo até Ourense onde lá segue pela Via de Prata.
Com 60% de estrada e 40% de terra batida revelou-se um percurso bastante duro principalmente no segundo dia pois fizemos muita estrada e a subir.
1º Dia – Urjal – Xinzo de Limia – 23 Julho – 98 Km – 7h e 38 m a pedalar
7 da manhã, levantar, carregar tudo na Traffic e siga estrada fora. Chegámos a Urjal (a cerca de 40 km de minha casa) por volta das 8 e 50, ainda parámos pelo caminho para tomar café e comer qualquer coisa.

A 2 km do ponto de partida – obras na estrada – estava mesmo impedida. Para não perder mais tempo, decidimos fazer 2 km de bike e subir até Urjal.
Na parte da manhã surgiram alguns imprevistos. Primeiro, o crenque esquerdo da Runner do Paulinho teimava em desapertar, e porquê? Porque vinha moído de casa, tivemos que parar 3 ou 4 vezes para reapertar. Numa parte em que o terreno tinha muita pedra, um toque a mais no travão da frente fez-me ser cuspido da bike para a frente, batendo com os joelhos no guiador, passei por cima da bike, em seguida ela por cima de mim e o resto já se sabe. Resultado: 2 joelhos pisados, 4/5 minutos no chão meio tonto, 2 ou 3 riscos no GPS e mais tarde apercebi-me que o shifter direito deixou de funcionar, noto que está meio torto. 3 ou 4 km adiante volta a funcionar e uns 15 km depois pára novamente. Abri-o, pus-me a mexer para lá e até ao final do dia não se queixou mais, mas noto que o trabalhar dele não é tão suave como antes da queda.
A chuva ainda caiu de manhã, o meu casaco fez jeito, ainda bem que não dei ouvidos aos 3 “marmelos” que iam só de Jersey e diziam que não fazia falta, viu-se.

O terreno da parte da manhã foi o melhor do dia, possivelmente não encontrarei nada minimamente parecido com a Geira Romana em Espanha. A água e a travessia de pequenos riachos eram uma constante bem como os pedregulhos com que simpatizei, a partir da queda, o andamento e a confiança para abusar nunca mais foram os mesmos.
A fauna do Gerês é fantástica, cavalos selvagens, cabritos monteses, vacas barrosãs e muito mais que não tivemos oportunidade de observar. Houve um episódio engraçado com uma vaca que teimava em não sair do único caminho possível, a dita olhava duma maneira ameaçadora, mas rapidamente percebemos que tinha era medo e ainda andou uns metros à nossa frente.
A cena mais engraçada do dia foi que ao km 10 sensivelmente, 2 canideos (abandonados presumo), colaram-se a nós durante cerca de 15 km, ficaram com um nome pois claro, uma cadela de grande porte ficou baptizada como Braga, e o pequeno parecido com uma Raposa, o Santiago. Ainda dei uma barrita ao Santiago, já que a Braga não quis. Depois de comer, desapareceram, pena, pois se chegassem até Santiago vinham embora comigo.

Fizemos poucos kms de manhã (36) e não fomos almoçar às Cascatas das Pozas como previsto, almoçamos sim, num sitio simpático com umas mesas e com um riacho em plena Mata da Albergaria.
Da parte da tarde, não há muito para contar, não contava fazer 62 km em alcatrão sempre a subir praticamente, coisa que os Intense 2.25 não gostam, nem eu!.. Mas que me manda a mim ir à maluco com pneus de taco aberto?

Cumprimos os objectivos, chegamos a Xinzo de Limia (20:30). A primeira residencial que encontramos, ficámos. 35 € por quarto duplo é muito, mas como aquela hora e depois daquele dia estafante não apetecia andar à procura de quarto.
Banho tomado, bálsamo nas pernas, desci para comer qualquer coisa, não tinha fome. 2 copos de leite com café e uma torrada foram o bastante.
São agora 23:35 (hora portuguesa), vou dormir que amanhã às 8 estou a sair fora da cama para mais um dia duro praticamente todo em alcatrão. E eu a pensar que tinha revisto a track em condições.
2º Dia – Xinzo de Limia – Oseira – 24 Julho – 90 Km – 7h e 36 m a pedalar
A saída ficou combinada para as 9h (hora portuguesa), às 9 e 15, eu e o Paulinho estávamos há cá em baixo num supermercado próximo a comprar qualquer coisa para o pequeno almoço. Do Filipe e do Violas nem sinal deles. Chegaram cá a baixo às 10 horas.

Segundo a track que tinha, as previsões não eram as melhores, mais um dia de muito alcatrão. 5 km depois de arrancar vi uma indicação da Via de Prata que é igual à dos Caminhos de Santiago, chegamos a acordo de seguir pela mesma desviando um bocado da rota inicialmente prevista.
Durante a parte da manhã, andámos cerca de 58 km por umas descidas fantásticas com pedras soltas à mistura. Numa parte enganámo-nos na direcção em que a seta amarela apontava e subimos mais do que o que devíamos mas valeu a pena. O Filipe que ia mais adiantado a subir chegou mesmo a ver um veado por entre searas de trigo e campos que me pareceram ser de criação de gado de corrida.

Por volta das 13 horas chegámos a Ourense e parámos para almoçar, bendito Mcdonalds no shopping.
Da parte da tarde, decidimos continuar pela Via de Prata pondo de parte o alcatrão. Chegamos ao albergue previsto (S. Cea) por volta das 19 h, tinha condições bastante agradáveis. Os 3 marmanjos queriam andar até ao próximo (Oseira, + 19km). Carimbo em S. Cea e fizemo-nos à estrada para o seguinte.
Chegados a Oseira deparamo-nos com uma aldeia minúscula, com meia dúzia de casas, dois cafés e um convento que, pelo que entendi era de Monges.

Encontrei 2 italianos e uma italiana que faziam a sua peregrinação a pé, um deles já o tinha visto no albergue anterior. Perguntei-lhes onde dormir e tomar banho ao qual me responderam que banho era para esquecer pois a zona de banhos tinha fechado (isto às 22h locais), dormir, numa capela com beliches, colchões no chão e uma casa de banho. Capela essa que era bastante fria, pois era totalmente construída em pedra. As camas não eram das melhores, sorte tive eu que ainda fiquei com a menos pior.
O jantar, esse foi num café da aldeia, fui buscar pão (duro como uma pedra), queijo, presunto e aquarius. Para me lavar, tive que improvisar, fui a uma fonte em frente ao café lavar alguma roupa, as pernas, braços, dentes e cara.

A saída para o terceiro e último dia ficou marcada para as 8 h com a dona do café com o pequeno almoço à nossa espera. De referir que esta senhora só abriu o café porque lhe demos a certeza que lá íamos, senão só da parte da tarde. Isto para terem noção da aldeia pacata que era.
3º Dia – Oseira – Santiago – 25 Julho – 85 Km – 7h e 36 m a pedalar
Encontrámo-nos à hora marcada no café para o pequeno almoço. Reabastecer água para a viagem e começamos logo monte acima em alcatrão. As 10 da manha já escorria suor por todos os cantos.

Decidimos seguir pela Via de Prata mais uma vez, que segundo a track que tinha, andava uns 5 km a Este.
Da parte da manha encontrámos de tudo. Desde alcatrão interminável a single tracks fabulosos, descidas fabulosas por entre aldeias simpáticas, etc.
O almoço foi as 13h (hora portuguesa) numa taberna. Uma tábua de queijo, enchidos, pão e aquarius. A fome não era muita, a ânsia de chegar ao destino falava mais alto.
Da parte da tarde encontramos um senhor que por acaso não devia estar com uns copitos a mais que só dizia que o Ronaldo era bom e que a Mondraker também era.

Por volta das 3 da tarde parámos num posto de abastecimento para dar um banhos às bikes e ligar para casa para a nossa boleia sair, isto a 25 km de Santiago.
Nesta tarde andámos bastante em alcatrão principalmente a descer atingindo velocidades de 60 km/h, até passava por scooters. Uma delas com um senhor de boxers e sem calças. (sim, leram bem)

A cerca de 10 km, o pior acontece, o pneu traseiro do Paulinho rebenta de lado. Solução, trocar com o da frente visto que o peso todo vai atrás e tentar tapar o buraco com abraçadeiras plásticas pelo menos durante aqueles 10 km em alcatrão. E lá aguentou até Santiago.

10 km depois, ali estava a Catedral. Fotos da praxe, certificado da peregrinação, esta não me queriam dar, dizia lá a senhora, que não tinha carimbos suficientes. Tentei explicar-lhe que pelos sítios que passei, ou estava tudo fechado ou simplesmente não carimbavam, lá a convenci e pronto. Comprei umas lembranças e a boleia chegou entretanto.

Quanto ao Camiño, para quem não experimentou, que experimente fazer-se a ele, por este relato não percebem a mística que há por detrás do mesmo, as convivências com outra cultura aqui mesmo ao lado, o sentido de reflexão quando se pedala calado, a perfeita harmonia que há com tudo o que nos rodeia, tudo é excelente.
Em 2010 há mais. Santiago – Finisterra – Muxia talvez..
Track do Percurso
Restantes Fotos:
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